Há uma oração que a maioria dos cristãos nunca fará conscientemente, mas faz o tempo todo de forma encoberta: “Senhor, me livra de situações que exijam coragem.” Pedimos por segurança, por conforto, por saúde, por prosperidade, por estabilidade. E há bondade genuína nessas petições. O problema é o que esse padrão revela sobre nossa relação com a presença de Jesus — porque a presença mais intensa do Senhor na vida de Paulo aconteceu exatamente na noite mais difícil de seu ministério, depois de dois anos de acumulação de perdas e sem qualquer garantia de amanhã.
“Na noite seguinte, o Senhor, pondo-se ao lado dele, disse: Coragem! Pois do modo por que deste testemunho a meu respeito em Jerusalém, assim importa que também o faças em Roma.”
Atos 23:11
O versículo é simples. A situação ao redor é catastrófica. E o que ele revela sobre o caráter de Deus é, ao mesmo tempo, perturbador e libertador.
Coragem não é fruto do Espírito
A distinção importa e precisa ser feita com clareza: coragem não aparece na lista de Gálatas 5:22-23. Amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio — sim. Coragem, não. Isso não é acidente. Enquanto os frutos do Espírito são disposições formadas no interior do crente pela obra do Espírito Santo, coragem é resposta ativa a uma demanda específica. Ela precisa ser buscada, cultivada, ativada. Por isso Paulo escreve a Timóteo que reavive o dom de Deus que há nele (2 Tm 1:6), e por isso o próprio Paulo pede que a igreja ore por ele:
“com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito… e também por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério do evangelho, pelo qual sou embaixador em cadeias, para que, em Cristo, eu seja ousado para falar, como me cumpre fazê-lo.”
Efésios 6:18-20
O apóstolo mais produtivo do Novo Testamento, o homem que plantou igrejas pelo Mediterrâneo e escreveu dois terços do cânon epistolar, pede que orem pela sua coragem. Não pela sua sabedoria, não pela sua saúde, não pela proteção dos perseguidores — pela coragem de abrir a boca. Isso deveria nos dizer algo sobre o quanto subestimamos o que é necessário para viver a fé de forma integral.
A palavra que Jesus reservava para os momentos impossíveis
O termo grego por trás de “coragem” e “bom ânimo” no Novo Testamento é θάρσει (tharsei) — e sua distribuição nos evangelhos é reveladora. Jesus a usa em momentos de crise existencial: ao paralítico que desceram pelo teto e que talvez esperasse cura física, Jesus diz tharsei e oferece perdão (Mt 9:2); à mulher que tocou a barra do seu manto depois de doze anos de hemorragia e de vergonha, Jesus diz tharsei e a restaura à comunidade (Mt 9:22); ao cego Bartimeu que gritava à beira do caminho enquanto a multidão tentava silenciá-lo, a palavra que os discípulos transmitem é tharsei (Mc 10:49). E na véspera da cruz, a última vez que Jesus usa a palavra antes da paixão:
“Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.”
João 16:33
Tharsei não é palavra de encorajamento para situações moderadas. É a palavra que Jesus usa quando as circunstâncias humanas humanas chegaram ao limite — e exatamente aí, ela soa como declaração de soberania. O mundo foi vencido. A coragem não é produzida pela ausência de ameaça; é sustentada pela certeza de quem já venceu.
A retrospectiva de Paulo: o preço de uma obediência
Para entender por que Paulo precisava dessa palavra naquela noite, é preciso rever o que havia acontecido nas semanas anteriores. Paulo tinha um plano claro: ir a Jerusalém, depois a Roma (At 19:21). O Espírito o constrangia; ele sabia que o que o aguardava não seria fácil (At 20:22). Os discípulos em Tiro, movidos pelo Espírito, pediam que não fosse (At 21:4). O profeta Ágabo amarrou os pés e as mãos com o cinto de Paulo e anunciou que assim os judeus o entregariam aos gentios (At 21:11). Paulo não recuou:
“Que fazeis chorando e quebrantando-me o coração? Pois estou pronto não só para ser preso, mas até para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus.”
Atos 21:13
Ele chegou a Jerusalém, reuniu-se com Tiago e os presbíteros, foi ao templo adorar — e foi agarrado pela multidão que o acusava de introduzir gentios no recinto sagrado. Tentou se defender, mas ao mencionar os gentios foi interrompido pelos gritos (At 22:21-22). Levado ao Sinédrio, a sessão terminou em tumulto, e o comandante romano teve de resgatá-lo à força antes que fosse linchado (At 23:10). Paulo foi recolhido à fortaleza. E foi ali, naquela noite — preso, incompreendido, sem ter conseguido concluir um único discurso em Jerusalém — que o Senhor apareceu.
Quanto maior o desafio, maior a presença
A observação é inevitável: o Senhor não enviou um irmão, não enviou um anjo, não mandou uma visão simbólica. O texto diz que Ele “pôs-se ao lado” de Paulo. A linguagem é de presença física, imediata, pessoal. E a primeira palavra é tharsei. Coragem. O mesmo que Jesus disse ao paralítico, à mulher, ao cego — agora dito ao apóstolo que havia chegado ao fundo da sua própria capacidade de suportar.
Por que experimentamos tão pouco dessa presença? Porque ela não se manifesta em terreno plano. Deus não apareceu a Paulo no meio de uma viagem tranquila ou numa igreja bem estabelecida — apareceu numa fortaleza romana, depois de uma tentativa de linchamento, com mais de quarenta assassinos reunidos fazendo juramento de não comer nem beber até matá-lo (At 23:12-13), sem que Paulo soubesse disso ainda. A equação que o texto sugere é incômoda: a intensidade da presença é proporcional à intensidade da necessidade. E nossa necessidade é baixa porque nossa vida é segura demais, nossos riscos são calculados demais, nossa obediência é gerenciada demais.
“mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra.”
Atos 1:8
A palavra traduzida por “testemunhas” é μάρτυς (mártys) — de onde vem “mártir”. Não é alguém que confirma com a cabeça o que viu; é alguém que pode ser chamado a confirmar com a vida o que testemunhou. O propósito do poder não é o conforto; é a capacidade de suportar o que a testemunha fiel precisa suportar.
A promessa que não falhou, mesmo quando tudo falhou
O Senhor disse a Paulo: “do modo por que deste testemunho a meu respeito em Jerusalém, assim importa que também o faças em Roma.” Paulo provavelmente não entendia que havia testemunhado. Não havia pregado um sermão completo. Não havia plantado uma igreja. Havia sido preso, golpeado, arrastado, interrompido. Mas o Senhor reconheceu o testemunho onde Paulo só via fracasso. A vinda a Jerusalém não foi em vão — e agora havia Roma.
O que veio depois foi extraordinário na direção oposta ao que Paulo esperaria: dois anos preso em Cesareia, discursando para governadores e para um rei (At 24-26), viagem marítima com ventos contrários, naufrágio na costa de Malta, picada de cobra, três meses de espera (At 27-28). A cada capítulo, uma nova razão para Roma não acontecer. E no capítulo 28, versículo 15, Paulo chega. O livro de Atos termina com ele pregando o reino de Deus por dois anos, “com toda a intrepidez, sem impedimento algum” (At 28:31). A palavra se cumpriu.
De onde você precisa partir?
No final do livro de Números, Moisés registra quarenta e uma partidas do povo de Israel até a chegada à terra prometida. Mas a primeira é a mais memorável:
“partiram, pois, de Ramessés no décimo quinto dia do primeiro mês; no dia seguinte ao da Páscoa, saíram os filhos de Israel, corajosamente, aos olhos de todos os egípcios.”
Números 33:3
Corajosamente. Com mão alta. Sem pedir licença ao sistema que os havia aprisionado. Paulo precisava sair de Jerusalém para Roma. Israel precisava sair do Egito para Canaã. A pergunta que o texto coloca a cada um é direta: de onde você precisa partir? Para onde Deus está te chamando? Se fosse fácil, não exigiria coragem. Se não exigisse coragem, talvez não exigisse a presença que só vem quando somos levados ao limite do que conseguimos sozinhos.
“Não temas, ó Sião, não se afrouxem os teus braços. O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, poderoso para salvar-te; ele se deleitará em ti com alegria; renovar-te-á no seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo.”
Sofonias 3:16-17



Leave a Comment