Jonathan Edwards, o teólogo que testemunhou e documentou o Primeiro Grande Avivamento norte-americano nos anos 1730, deixou uma observação que deveria incomodar qualquer pessoa que se sente satisfeita com sua vida religiosa: “Ouso dizer que ninguém jamais foi transformado, seja por doutrina, por ouvir a Palavra ou pela pregação e ensino de outros, sem que as suas afeições tenham sido comovidas. Ninguém busca sua salvação, ninguém clama por sabedoria, ninguém luta com Deus, ninguém se ajoelha em oração tampouco foge do pecado se seu coração permanece inalterado. Jamais se realizou nada significativo, pelas coisas da religião, sem um coração profundamente afetado.” A questão que essa afirmação força é direta: o que está acontecendo com o seu coração?
“Oh! Se fendesses os céus e descesses! Se os montes tremessem na tua presença, como quando o fogo inflama os gravetos, como quando faz ferver as águas, para fazeres notório o teu nome aos teus adversários…”
Isaías 64:1-2
A oração de Isaías é um anseio que vai além do categorizável. Ele não está pedindo provisão, não está pedindo proteção, não está pedindo orientação. Está pedindo que Deus rasgue o firmamento que Ele mesmo estabeleceu no segundo dia da criação e desça. Que os montes tremam. Que o fogo derreta o que é sólido. A linguagem não é litúrgica — é a linguagem de alguém que chegou ao limite do que a normalidade religiosa pode oferecer.
O problema do coração inalterado
O paradoxo documentado nos evangelhos é perturbador: Jesus fez tantos sinais diante de Israel que João registra que “não caberiam nos livros” (Jo 21:25) — e ainda assim, “embora tivesse feito tantos sinais na sua presença, não creram nele” (Jo 12:37). A abundância de evidências não produziu fé. Produziu anestesia. O coração que se acostuma com o extraordinário passa a tratá-lo como ordinário — e então já não é movido por nada.
Isso explica o que Salomão observou ao dedicar o templo: “Mas, de fato, habitaria Deus na terra? Eis que os céus e até o céu dos céus não te podem conter” (1 Rs 8:27). A pergunta retórica de Salomão revela a tensão fundamental: Deus é transcendente demais para ser contido por qualquer estrutura — e ao mesmo tempo, é exatamente esse Deus que Isaías clama para que desça. A oração por céus abertos não é ingênua sobre a majestade divina; é precisamente porque o orador conhece a majestade de Deus que o anseio é tão urgente.
Isaías pede o que a razão não ousaria pedir
O que Isaías quer não é apenas uma experiência espiritual subjetiva. Ele quer que os montes tremam — que tudo que representa resistência, força e imponência na ordem natural seja reduzido à condição de graveto diante do fogo. Ele quer que os adversários sejam informados pelo tremor de quem é Deus. Há uma dimensão apologética no clamor: quando Deus se manifesta de forma extraordinária, o mundo que estava confortavelmente cético é confrontado com uma realidade que não tem como domesticar.
“Porque o Dia do Senhor dos Exércitos será contra todo soberbo e altivo e contra todo aquele que se exalta… A arrogância do homem será abatida, e a sua altivez será humilhada; só o Senhor será exaltado naquele dia.”
Isaías 2:12-17
O avivamento, nessa perspectiva, não é evento para consumo interno da comunidade cristã. É o céu tocando a terra de forma notória — visível para todos, não apenas para os que já creem. O que a comunidade não consegue mudar com esforço, eloquência ou estratégia, a presença manifesta de Deus dissolve como graveto diante do fogo.
O Deus que faz coisas terríveis que não esperávamos
Isaías acrescenta uma nota que desarma qualquer tendência de enquadrar Deus em expectativas gerenciáveis: “Quando fizeste coisas terríveis, que não esperávamos, desceste, e os montes tremeram à tua presença” (Is 64:3). O adjetivo é significativo — terríveis, no sentido hebraico de yārē’, que carrega simultaneamente os matizes de “temível” e “admirável”. As intervenções divinas não são bonitas segundo o padrão humano de beleza; são avassaladoras. E são sempre além do esperado.
“Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós…”
Efésios 3:20
Avivamento não é se lembrar do que Deus já fez. É experimentar Ele fazendo de novo — e de forma que surpreende até quem pediu. Os que estavam em Jerusalém no Pentecostes ficaram “atônitos e perplexos” (At 2:7,12). Não era a reação de quem viu o que esperava. Era a reação de quem foi surpreendido pelo Deus que não se deixa conter por nenhuma expectativa prévia.
Sais ao encontro de quem pratica a justiça com alegria
Mas Isaías não encerra o pedido sem revelar a condição do encontro:
“Sais ao encontro daquele que com alegria pratica justiça, daqueles que se lembram de ti nos teus caminhos…”
Isaías 64:5
Deus sai ao encontro — mas de um perfil específico: aquele que pratica a justiça com alegria, não por obrigação; aquele que se lembra de Deus nos caminhos cotidianos, não apenas nas ocasiões religiosas. O avivamento não é descida indiscriminada de Deus sobre qualquer grupo reunido. É encontro com quem desenvolveu o hábito de orientar o coração para Ele no ordinário — na condução, no engarrafamento, no meio da calçada. Aquele apetite pelo extraordinário que o avivamento produz é cultivado no ordinário. O que vai extraordinário vem de quem foi fiel no ordinário.
“Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu Deus além de ti, que trabalha para aquele que nele espera.”
Isaías 64:4
Ele trabalha para quem O espera. Não para quem O usa como recurso de emergência. Para quem aprendeu a esperar — e a clamar, como Isaías, que o firmamento seja rasgado e que Deus desça.



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