“Não há um centímetro quadrado em todo o domínio de nossa existência sobre o qual Cristo, que é soberano de todos, não possa gritar: é meu.” A frase é de Abraham Kuyper. E ela é o melhor ponto de entrada para entender o que Paulo está celebrando em Romanos 11:36.
“Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!”
Romanos 11:36
“Todas as coisas” é muito abrangente — e é exatamente esse o ponto. Soberania é, por definição, abrangência. Se não fosse todas as coisas, não seria soberania. Deus tem autoridade, liberdade, sabedoria e poder legítimos para cumprir tudo o que Ele pretende que aconteça. E tudo o que Ele pretende que aconteça, acontece.
Soberano nas coisas gritantes
Existem áreas em que a soberania divina é óbvia demais para ser contestada. A salvação é a primeira delas.
“Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia.”
Romanos 9:15-16
Vida e morte também estão sob seu governo absoluto:
“Vede, agora, que Eu Sou, Eu somente, e mais nenhum deus além de mim; eu mato e eu faço viver; eu firo e eu saro; e não há quem possa livrar alguém da minha mão.”
Deuteronômio 32:39
E os nossos planos e projetos de vida não escapam dessa soberania:
“Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois, apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa.”
Tiago 4:13-15
Soberano nas coisas invisíveis
Mas Paulo, no contexto de Romanos 11, estava especialmente assombrado com algo menos óbvio: a soberania de Deus nas coisas invisíveis — aquelas em que, na superfície, Deus parece ausente.
“Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo.”
1Coríntios 15:10
Quando tudo o que as pessoas enxergavam era o esforço, a eloquência e o sucesso do ministério de Paulo, ele atribuía tudo ao agir invisível e gracioso de Deus. O que o tornava quem era não eram suas qualidades — eram suas fraquezas.
“A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo.”
2Coríntios 12:9-10
O Deus soberano sabe como nos tornar dependentes. A mesma graça suficiente para o desempenho da missão é a mesma graça necessária para suportar as aflições. Por isso ela é suficiente — porque Deus é soberano, é impossível que a graça nos falte no momento em que mais precisamos.
Soberania que gera esforço, não acomodação
Há uma objeção óbvia: se Deus é soberano sobre tudo, para que me esforçar? Paulo antecipa essa pergunta em Filipenses 2 e dá uma resposta que parece paradoxal.
“Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.”
Filipenses 2:12-13
A graça anula o mérito, não o esforço. O esforço que nasce da fraqueza e da dependência é ordenado em toda a Escritura — andar no Espírito, mortificar os feitos do corpo, prosseguir para o alvo. A diferença é que esse esforço não brota de nossa competência, mas da soberania de Deus agindo em nós. Reconhecer isso não é passividade; é a única forma de obediência que sustenta.
“Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas.”
Provérbios 3:6
Soberania e paciência: o poder que se contém
Há uma manifestação da soberania divina que raramente é discutida, mas que é, talvez, a mais impressionante: a paciência de Deus.
“O Senhor é tardio em irar-se, mas grande em poder e jamais inocenta o culpado; o Senhor tem o seu caminho na tormenta e na tempestade, e as nuvens são o pó dos seus pés.”
Naum 1:3
Nós, seres humanos, geralmente somos pacientes porque não temos escolha — quando não podemos mudar uma situação, esperamos. Deus não está nessa posição. Se algo não estiver como Ele deseja, Ele pode mudar a qualquer momento, sem nenhum limite. E ainda assim, Ele é paciente. Exercer paciência para quem tem poder absoluto é uma demonstração de poder sobre si mesmo — e isso é mais extraordinário do que criar o universo.
“Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?”
Romanos 2:4
Três implicações práticas dessa verdade merecem atenção. Primeira: Deus é paciente conosco porque descarregou sobre Jesus a medida exata da punição que nossos pecados merecem. A ira desviada de nós hoje se deve ao fato de que, no Calvário, ela não foi desviada do Filho. Segunda: a enormidade de nossas ofensas deveria gerar arrependimento genuíno — e não familiaridade com a graça. Terceira: se a paciência é demonstração do poder de Deus sobre si mesmo, o que ela exige de nós em relação aos outros?
“Ora, o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar.”
1Pedro 5:10-11
O chamado de Deus gera vida. O que Ele ordena, Ele supre. Essa é a diferença entre um Deus soberano e qualquer outro senhor: Ele não só governa, Ele sustenta aqueles que governa. Não se trata de se esforçar mais — trata-se de se render ao Senhorio de Jesus.


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