“Deus é bom” é, provavelmente, a frase mais repetida nos corredores das igrejas brasileiras. E também uma das menos compreendidas. A facilidade com que a dizemos revela, muitas vezes, o oposto daquilo que afirmamos: tratamos a bondade divina como jargão consolatório, como paliativo subjetivo para horas difíceis, como atributo circunstancial que se ativa quando as coisas dão certo. A Escritura, porém, apresenta a bondade de Deus em categoria inteiramente distinta. Ela não é reação; é essência. Não é sentimento piedoso; é verdade objetiva.
“Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre.”
Salmos 23:6
Esta exposição tem por objetivo desmontar a leitura sentimental do Salmo 23 e, a partir dele, reconduzir o leitor à bondade de Deus como Ele mesmo a revela. Para isso, trataremos o Salmo 23 como parte da chamada trilogia messiânica (Salmos 22–24), na qual bondade, sacrifício e senhorio se entrelaçam de modo inseparável.
A bondade de Deus não é jargão
Há uma forma de piedade evangélica que confunde confissão bíblica com afeto emocional passageiro. Dizer “Deus é bom” num momento de crise pode ser ato de fé — ou mero consolo sentimental sem ancoragem teológica. O próprio Senhor corrigiu a categoria:
“Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão um, que é Deus.”
Lucas 18:19
O ponto de Jesus não é negar a sua própria divindade; é confrontar o jovem rico com a implicação da palavra que ele acabara de usar. Se Cristo é bom e só Deus é bom, então Cristo é Deus. O interlocutor é convidado a ir até onde sua palavra o leva. Mais importante para nosso argumento: bondade, na boca de Jesus, não é categoria humana descritiva — é atributo exclusivo da divindade. Chamar qualquer outra realidade de “boa” só faz sentido na medida em que ela participa, deriva ou reflete a bondade que Deus é.
Deus é o padrão máximo de bondade
O primeiro capítulo do cânon apresenta a bondade divina em duas frentes: o agir criador e o juízo estético sobre a própria obra.
“Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. Houve tarde e manhã, o sexto dia.”
Gênesis 1:31
O hebraico ṭôb (טוֹב), traduzido por “bom”, carrega em Gênesis 1 as ideias de adequação funcional, beleza, ordem moral e aprovação divina. Quando Deus chama a criação de “muito boa”, Ele está afirmando que o resultado corresponde perfeitamente ao seu próprio caráter. A bondade criada é derivada da bondade incriada. Nenhum bem existe autonomamente em relação a Deus; todo bem é bem por participação na bondade essencial do Criador.
Esse dado tem peso prático. A busca humana por aquilo que é bom — no casamento, no trabalho, na criação dos filhos, nos afetos — é, no fundo, busca por Deus. Negar isso é cair em duas idolatrias simétricas: a do idealismo, que absolutiza bens criados, e a do cinismo, que nega que eles reflitam algo maior. A Escritura sustenta uma posição terceira: os bens criados são bons porque Deus é bom, e só são plenamente desfrutados quando reconhecidos como dádivas.
A bondade ativa: Deus ama fazer o bem
“Farei com eles aliança eterna, segundo a qual não deixarei de lhes fazer o bem; e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim. Alegrar-me-ei por causa deles e lhes farei bem; plantá-los-ei firmemente nesta terra, de todo o meu coração e de toda a minha alma.”
Jeremias 32:40-41
Este texto é, possivelmente, o mais espetacular da Bíblia sobre a bondade ativa de Deus. Note a linguagem: “de todo o meu coração e de toda a minha alma”. A mesma fórmula que Deus exige do Israel no Shema (Dt 6:5), Ele a emprega para descrever o seu próprio afeto ao fazer o bem ao seu povo. Deus não abençoa por obrigação ou por pressão litúrgica. Ele se alegra em abençoar. Abençoar é expressão afetiva do seu coração.
Tiago, séculos depois, traduz esse mesmo atributo em linguagem cristã:
“Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança.”
Tiago 1:17
Bondade, em Deus, não oscila. Ele não é mais bom em alguns momentos e menos em outros. Ele não é bom conforme a nossa performance. Ele é bom porque é o que Ele é — e o que Ele é, permanece.
“Certamente me seguirão”: a perseguição amorosa de Deus
O verbo hebraico por trás de “me seguirão” em Salmos 23:6 é rādaf (רָדַף) — um termo usualmente traduzido como “perseguir”, com forte sentido de caça ou busca ativa. Davi está dizendo algo extraordinário: a bondade e a misericórdia de Deus não ficam à espera de que o crente as encontre; elas o perseguem.
“Porque o Senhor Deus é sol e escudo; o Senhor dá graça e glória; nenhum bem sonega aos que andam retamente.”
Salmos 84:11
Leia devagar: “nenhum bem sonega”. O verbo é jurídico — remete à ocultação ilícita de algo devido. Deus não retém injustamente bem algum que seria bom para seus filhos. Se algo desejado não é concedido, o que o texto implica é que esse algo não seria, de fato, bem em nosso caso. Essa confiança é o oposto da reclamação crônica.
“Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem?”
Mateus 7:11
O argumento de Cristo é a fortiori: do menor para o maior. Pais humanos, ainda que fundamentalmente pecadores, sabem discernir o que convém aos filhos. Como negar, então, que o Pai celeste — sem qualquer falha moral — saberá infinitamente mais?
A bondade que também disciplina
Um equívoco comum é limitar a bondade de Deus a bênçãos confortáveis. As Escrituras ampliam a categoria para incluir a disciplina como expressão pedagógica dessa mesma bondade.
“Pois eles nos corrigiam por pouco tempo, segundo melhor lhes parecia; Deus, porém, nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade.”
Hebreus 12:10
O autor de Hebreus contrasta a disciplina humana — frequentemente arbitrária, frequentemente fundada no limite do conhecimento dos pais — com a disciplina divina, sempre ordenada “para aproveitamento” e com vistas à santidade. Disciplinar, portanto, não contradiz bondade; manifesta-a. Um Deus que não corrigisse não seria Deus bom, mas Deus indiferente. E o Deus da Bíblia não é indiferente aos seus filhos.
A trilogia messiânica: cruz, cajado e coroa
O Salmo 23 não foi escrito no vácuo. Ele integra uma trilogia deliberada composta pelos Salmos 22, 23 e 24. Os três salmos juntos formam uma exposição cristocêntrica da obra e do caráter do Bom Pastor.
Salmo 22 — o Pastor sacrificado
O Salmo 22 abre com o clamor que Cristo proferiu na cruz: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Sl 22:1; Mt 27:46). O salmo descreve, com precisão profética extraordinária, as circunstâncias do Calvário — ossos não quebrados, vestes repartidas, mãos e pés traspassados (Sl 22:14-18). Este é o Pastor que dá a vida pelas ovelhas (Jo 10:11) antes de conduzi-las. Ele não é capaz de caminhar ao lado do rebanho pelo “vale da sombra da morte” senão porque atravessou, sozinho e antes, o seu próprio vale no Gólgota.
Salmo 23 — o Pastor presente
Só depois do Salmo 22 o Salmo 23 faz pleno sentido. A condução mansa, as águas tranquilas, o cajado que consola — tudo isso é possível porque o sacrifício foi consumado. A bondade e a misericórdia que perseguem o crente todos os dias são, na teologia do salmo, frutos da cruz do Salmo 22. Sem o sangue, não há pastoreio. A presença suave do cajado no Salmo 23 repousa sobre a violência redentora do Salmo 22.
Salmo 24 — o Pastor coroado
“Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó portais eternos, para que entre o Rei da Glória.”
Salmos 24:7
O Salmo 24 arremata a trilogia com a entronização do Rei. O mesmo que sofreu (Sl 22) e que conduz (Sl 23) agora reinará. Pedro faz o elo explícito:
“Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória.”
1 Pedro 5:4
Cruz, cajado e coroa formam a espinha dorsal da soteriologia pastoral das Escrituras. Dizer “Deus é bom” sem a trilogia é dizer uma frase sem colunas. Dizer “Deus é bom” com a trilogia é confessar que a bondade divina chega até o crente pela via da cruz, sustenta-o pela via do cajado e o conduzirá pela via da coroa.
Romanos 8 e a cadeia dourada da bondade
“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.”
Romanos 8:28-30
Os teólogos reformados chamam esta sequência de “cadeia dourada da redenção” — aurea catena salutis. Cinco elos indestrutíveis: presciência, predestinação, chamada, justificação e glorificação. A promessa de que “todas as coisas cooperam para o bem” não é otimismo vago; é a consequência lógica de um Deus que planejou, iniciou, consumou e consumará a salvação dos seus. “Todas as coisas” inclui o que dói, o que tarda, o que desarranja planos. Nenhuma dessas coisas escapa à cooperação ordenada pela bondade soberana.
É por isso que crentes maduros não dizem “Deus é bom” apenas quando a colheita vem. Dizem-no especialmente quando ela não vem — porque sabem que o Pastor dos Salmos 22–23–24 continua sendo o mesmo, quer em dia de festa, quer em noite de luto.
Conclusão: a bondade que não depende das circunstâncias
“Ora, o Deus da paz, que tornou a trazer dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor, o grande Pastor das ovelhas, pelo sangue da eterna aliança, vos aperfeiçoe em todo o bem, para cumprirdes a sua vontade, operando em vós o que é agradável diante dele, por Jesus Cristo, a quem seja a glória para todo o sempre. Amém!”
Hebreus 13:20-21
A benção que encerra a Epístola aos Hebreus reúne os três salmos numa só doxologia: o sangue da eterna aliança (Salmo 22), o grande Pastor das ovelhas (Salmo 23) e a glória para todo o sempre (Salmo 24). A bondade de Deus, portanto, é confessada não como estado de espírito do crente, mas como confissão objetiva sobre a natureza de Deus revelada em Cristo.
Deus não é bom porque a vida é boa. Deus não é bom apesar das circunstâncias. Deus é bom. Bondade é aquilo que Ele é. E nada que escape do seu controle soberano chega até o crente sem passar pela mão que carregou o cajado, foi pregada na cruz e há de empunhar o cetro. Esta é a fé que o Salmo 23 ensina. Esta é a fé que sustenta o povo de Deus em qualquer circunstância.
Perguntas frequentes sobre a bondade de Deus
O que significa dizer que “Deus é bom”?
Significa afirmar, com a Escritura, que a bondade é um atributo essencial do ser de Deus, não uma qualidade que Ele ocasionalmente exibe. Deus é o padrão de toda bondade (Lc 18:19), a fonte de toda boa dádiva (Tg 1:17) e o agente ativo que pratica o bem aos seus (Jr 32:40-41).
Se Deus é bom, por que existe sofrimento no mundo?
A resposta bíblica não é simples, mas é sólida: o sofrimento entrou no mundo pela queda (Gn 3; Rm 5:12), não como obra original de Deus. Em meio ao sofrimento, Deus age de três modos: redime (no Salmo 22 / cruz de Cristo), sustenta (no Salmo 23 / pastoreio) e consumará a restauração (no Salmo 24 / reino). Romanos 8:28 afirma que, para os salvos, até o mal serve à cooperação da sua bondade.
Como o Salmo 23 se conecta aos Salmos 22 e 24?
Os três formam a trilogia messiânica: o Salmo 22 apresenta o Cristo sacrificado, o 23 o Cristo pastoreando, e o 24 o Cristo entronizado. Lidos isoladamente, são textos poéticos; lidos em conjunto, são exposição da obra redentora de Cristo na cruz, na presença e na glória.
A disciplina de Deus também é expressão da bondade?
Sim. Hebreus 12:10 ensina que a disciplina divina é ordenada “para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade”. Um Deus que não corrige seria Deus indiferente; o Deus bíblico é Pai amoroso, e como todo bom pai, disciplina os filhos que ama (Hb 12:6).
Como viver na confiança prática da bondade de Deus?
Cultivando três hábitos bíblicos: meditação no evangelho (cruz / cajado / coroa), gratidão ativa pelas dádivas presentes (Tg 1:17) e submissão na disciplina (Hb 12). A confiança na bondade de Deus não é emoção espontânea, mas convicção cultivada pela meditação contínua na sua revelação.
Texto adaptado de exposição do Pr. Guilherme Fontes sobre o Salmo 23. Para outros estudos de soteriologia, caráter de Deus e teologia bíblica, navegue pelas categorias deste blog.

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